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A torcedora símbolo: Dona Eliene

Foto: Freepik Premium

Dona Eliene era a torcedora símbolo daquele time, capaz de deixar queimar a panela para discutir sobre quem era o melhor jogador. Pelo time, dizia ela, era capaz de qualquer coisa, até de viajar a cavalo sem saber montar.

Mãe de Nego Jordan (ela não gostava quando chamavam o filho dela de Ney Rio, em comparação a um determinado jogador, cuja amplitude aquática era bem maior), era uma mulher confiante no talento daquela equipe, que seria, segundo ela, a cópia do Vasco (seu time do coração) dos bons tempos, com Rondinelli, Orlando, Dinamite e tantos outros, que vestiram a camisa cruzmaltina.

Era verdadeiramente uma torcedora fiel. Por várias vezes, abriu sua casa para as comemorações do clube, que sempre aconteciam. Só tinha uma coisa: nada de bebida alcoólica, palavrões ou algo do tipo. Não importava quem era, se o melhor da equipe, o astro do jogo, o presidente ou até mesmo o seu marido, que também não bebia. Ninguém entrava com nenhum tipo de bebida nem abria a boca para falar qualquer impr. Contam a boca pequena, que certa feita ela fez Dirran (atleta do clube conhecido por sua delicadeza de jumento enfurecido numa loja de louças) escovar a boca com detergente, por conta de um palavrão, que lhe escapara quando contava uma peripécia para o grupo de jogadores ali reunidos, a popular resenha.

E era na resenha que surgiam as estórias mais inusitadas, sempre sob o olhar e ouvidos atentos da torcedora número um daquele time.

E ela era uma mulher de fé. Dizia que não fazia promessa, porque isso não era certo, pois se fizesse tinha que cumprir, mas não largava sua bíblia, nem deixava de ir ao culto por nada, mesmo que fosse final de campeonato e o time estivesse disputando. Era uma pessoa singular, com um enorme coração, aconselhadora, amiga, mas também, como diziam os “meninos”, quase uma “delegada” quando a situação assim se impunha. E gostava de cumprir o que dizia, como naquela vez que fez Nerroda tomar quase um frasco de óleo de rícino por este ter se queixado de uma prisão de ventre, ou mesmo quando botou Nego Jordan pra tomar, durante duas semanas direto, beterraba com ovo, leite e aveia, para criar “sustança”.

Era médica, fisioterapeuta, psicóloga, conselheira daqueles marmanjos, como dizia Dona Terezinha: “Dona Eliene é a mãe desses meninos e a saúde do time”.

E como não podia deixar de ter um acontecido, Dona Eliene se meteu a andar de cavalo, por sinal um cavalo que Lila tinha ganho como melhor atleta de um jogo, em que ele conseguiu parar ninguém menos que Litinho, o jogador mais cobiçado daquelas plagas. Mas voltando ao caso do cavalo, ela, toda pimpona e com a ajuda do filho, montou no animal.  A recomendação era de não bater nas “ancas” do cavalo, senão ele dispararia e aí quem não tivesse habilidade iria ao chão. E ela queria, porque queria andar, mais para poder se distrair que por necessidade. 

E ela vai, toda esbelta, afinal era uma mulher elegante, de calça comprida, botas, caracterizada a rigor para o momento. E eis, que num momento de empolgação, o cavalo cavalgando pacificamente, alguém chama a atenção de Dona Eliene que, distraidamente, meteu os calcanhares das botas no cavalo. Foi a conta. O cavalo em disparada, ela gritando por socorro e os jogadores abandonando o jogo, que corria ali perto para tentar segurar sua patrona. A disparada era tanta que quanto mais gritavam para puxar as rédeas e não castigar a barriga do animal, mais ela atacava o bicho e mais ele corria. Finalmente, depois de uma desabalada carreira, Pedro Preto consegue alcançar as rédeas e para o equino. Assim, que o animal estava sob controle, desce Dona Eliene, mais suada que pano de cuscuz e mais arranhada que sofá de casa onde tem gato, por conta das árvores encontradas à beira do caminho e que castigaram a torcedora símbolo daquela equipe. E haja água com açúcar para ela, que a esta altura estava totalmente sem fôlego e sem direção.

Tranquilamente os atletas voltaram ao jogo, não sem antes receberem cartões amarelos distribuídos à vontade pelo juiz, que tina interrompido a partida por conta do episódio.

Terminada a partida, procuraram pela torcedora, e ela estava tacitamente sentada, ainda se recuperando.

Depois desse acontecido, ela não quis mais saber de andar de cavalo, mas se tornou veterinária e criou uma escola de equitação.  

Jonas Santana Filho

escritor, professor, gestor público e apaixonado por futebol

Contato: jonassan40@gmail.com

 

 

 

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